Bicha, preta e periférica. Liniker Barros, 20 anos, conquistou mais de dois milhões de acessos no Youtube com sua voz sensível e cheia de suíngue e ao levar para o palco o estilo de vida cheio de coragem. Com roupas que trafegam entre os gêneros, Liniker rejeita o binarismo homem-mulher e enche os pulmões para respirar e gritar em nome da liberdade total, irrestrita, em nome do direito de ser quem quiser.

Nos shows, usa de roupas dita femininas, vestidos, turbante e brincos enormes, mas esclarece que não os usa com a intenção de criar uma persona artística, mas apenas levar à cena quem é no dia a dia. “A partir do momento que eu me desconstruí e deixei de me definir como homem ou como mulher, me abriu um leque de várias possibilidades. Eu tirei o artigo da minha vida. Não sei se sou o Liniker, não sei se sou a Liniker. Eu sou Liniker. Se você me encontrar na rua, vai me ver do mesmo jeito. Tudo o que eu tento excluir da minha vida é a normatividade”.

 

Empoderado, ele enfrenta os olhares preconceituosos com a segurança de quem se afirma como um ser humano livre de rótulos. “A gente vive numa sociedade que tenta reprimir tudo que foge de seu padrão. Enfrento piadas machistas, homofóbicas, enfrento repressão, opressão. Tem sempre um idiota para falar que quer te comer. Mas quanto mais isso vai acontecendo, mais a gente vai driblando e se colocando ainda mais para que isso não faça mais sentido. Eu me imponho e acho importante que as pessoas se empoderem para conseguir acabar com esse preconceito escroto”.

 

Liniker vem de uma família apaixonada por música. Desde criança, ouvia as várias vertentes de música negra. “O apoio da minha família foi fundamental. Eles são todos músicos, sempre me apoiaram, mesmo eu não sabendo ainda se viria a cantar. Eu, na verdade, tinha vergonha de cantar e eles sempre me incentivavam”.Em casa, ele ouvia e ainda ouve desde Nina Simone a Trio Mocotó, passando por Tim Maia e Bebeto. No primeiro trabalho, navega por elementos distintos da música, do soul até a guitarrada paraense. “A gente colocou tudo o que queria nesse EP. Acho importante fazer essa mistura. Colocar o povo preto, periférico no palco”.

 

nem homem nem mulher apenas liniker

por felipe martins

© REVISTA XICO // 2016