PÉ NO SKATE TEXTO: YAGO DIAS

Divulgação

Uma das primeiras lembranças que tenho de ver skate na televisão foi uma matéria do Comando da Madrugada, extinto programa do jornalista Goulart de Andrade, talvez na TV Gazeta. Percebe as incertezas? Não repare, estou falando de 1980 ou 1990. Agora, as coisas inesquecíveis: a matéria foi gravada na casa de Mauro Abreu Dias Fernandes, o Mureta. O cara tinha um half de cimento, no quintal de casa. Na sessão, além do anfitrião, George Rotatori, Fabio Bolota e outros vert riders dos anos 80. Lá estava eu, grudado na televisão de madrugada, tentando entender o que era aquilo, e fascinado com o que aprendia ali. Além da sessão dentro da casa, um certo Thronn foi pra rua mostrar o que era um ollie, um ollie flip, um boneless. Bem mais tarde, percebi que a tal reportagem não apenas foi um marco pra mim como skatista, mas também na profissão que acabei exercendo, de jornalista. Hoje ela me mostra como uma história bem contada pode transformar uma vida. A ironia disso tudo é ela ter sido exibida numa TV aberta. Acredite, pouca gente detesta mais do que eu o skate que a TV aberta exibe atualmente. Mas o que aquela matéria mostrava era o estilo de vida daqueles caras. Não era o logotipo de seu patrocinadores. E o que as pessoas precisam é viver. Estacionei o carro, escutei os barulhos do skate, olhei pra cima e vi o Ragueb Rogerio, na plataforma. Ele me viu, e fez o sinal com a mão de “entra”, e ali, enquanto abria aquele portão, passou um filme na minha cabeça que era, de certa forma, o filme da minha vida. Mas é skate, e é aquela coisa: no instante seguinte, já comecei a identificar quem estava na rampa (a saber: Akira Shiroma, Biano Bianchin, Noveline, Dexter, Jr. Pig, Allan Carvalho, Felipe Espíndola, além do Ragueb), e prestar atenção nas linhas e manobras incríveis Era hora de viver a sessão presente. E, depois que cheguei, o céu fechou, veio uma tempestade. Fiquei menos de dez minutos, e fui embora ouvindo inúmeros convites pra voltar. E espero, sim, voltar, e gostaria muito de que na próxima vez o dono desse templo do skate brasileiro esteja lá para me receber. Que sonho simples, não? Muito simples, como as melhores coisas da vida são.
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