ANA CRISTINA CESAR

POESIA EXEMPLAR

Os versos que abrem “Samba canção”, uma das entregas poéticas daquela que é talvez a obra mais conhecida de Ana C., A teus pés, são capazes de nos levar a pensar: quantos e que tantos poemas a poeta carioca não teria perdido, ouvindo-os de graça, ao telefone, se daqui não tivesse partido há 30 anos, em 29 de outubro de 1983. A linguagem de Ana C., programadora, mixeuse de afetos numa pickup de palavras, buscava e encontrava sua força no lapidar desse registro recolhido: a conversa ao telefone, a confissão, a carta, a anotação, o rabisco, feito os lunch poems de Frank O’Hara – e desses fragmentos costurava todo um universo de planos polifônicos de discurso e de intervenção. Poesia que articula e efetiva um real possível na linguagem.

 

Foi em meio à geração do mimeógrafo que Ana C. despontou. Geração fruto de um novo senso de mobilização que assomava sobre o país, da figura do poeta guerrilheiro de Terra em transe, aquele cuja poética se cruzava com a política, se fazia ato e ação. Um novo perfil de mobilização se imprimia na produção independente daqueles jovens autores cuja experiência coletiva nos finais dos anos 1970 consolidava um legado cultural, comportamental e social do maio de 68. Ana se distinguia valendo-se de um repertório intelectual arguto e de um senso estético ímpar (sua opção “pelo olhar estetizante”). E assim, em meio aos poetas marginais da “Geração 77”, como batizou Elio Gaspari, ela atravessou outros níveis de discurso, fez seu percurso para além das agendas ideológicas, num texto marcado pela declaração do corpo, legado moderno de Walt Whitman – “recito WW para você. Amor, isto não é um livro, sou eu que você segura e sou eu que te seguro” –, em que o poema se faz próprio corpo do poeta, fragmentando fronteiras comportamentais, políticas, íntimas e confessionais e fazendo da poesia sintoma de uma época. Políticas do desejo advindas da guinada de 1968. Fôssemos ecoar Deleuze, de quem Ana C. era leitora, diríamos que o que interessava a ela – a instigava? – era a esfera molecular: os microacontecimentos, o discurso menor.

 

Silviano Santiago deu um título sintomático a seu ensaio de 1985 sobre a poeta: “Singular e anônimo”. Posto que o estado intrínseco da linguagem poética é a constante travessia em direção ao outro, em Ana C., esse “outro”, o leitor, não é um coletivo, e sim um destinatário que, embora sempre singular, “não é pessoal porque necessariamente anônimo”. Leitor este que não tem nome próprio, mas a quem é endereçado, por exemplo, o livro/poema Correspondência completa: o assinalado “My dear”. Uma carta que traz crivada em si uma “grande história passional, guardada a sete chaves”, mas que sangra em cumplicidade e comunhão com o leitor – conosco –, cuja alteridade está ali para ser atravessada num ato de (re)conhecimento.

 

A trilha que seguiu Ana C. na afectuação da poesia moderna é aquela do corpo que se faz na tecedura do texto, a de Whitman, que articula a vida e a contemporaneidade ditas “pequenas”, fragmentárias/fragmentadas, retalhos cotidianos, na tentativa de traçar a biografia de uma voz. É essa a voz da entrega de A teus pés, do processo encantatório de Luvas de pelica, sedutora travessia para uma dimensão alheia na linguagem, e mesmo do estilhaçamento dos sentidos numa construção ou montagem cinematográfica (remontando a Eisenstein e, também, Godard). No plano de Ana C., o corpo, como para Rimbaud, é primário – ao contrário duma linguagem cerceada, que reifica, o corpo guarda seu significado em reserva e é, antes de tudo, sentido e experimentado através das sensações físicas e movimentos abraçados pelo ato poético.

 

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