MACHADO DE ASSIS

A PRINCIPAL REFERÊNCIA

Joaquim Maria Machado de Assis teve a mais improvável das histórias de sucesso literário. Nascido em 1839, no Rio de Janeiro, então uma cidade de 200.000 habitantes, era filho de uma lavadeira e de um pintor, e neto de escravos libertos. Sem nunca ter frequentado uma universidade ou posto os pés na Europa, o autor tornou-se a figura central da literatura brasileira no seu tempo. Mas conquistar a proeminência literária na jovem nação brasileira – cujo maior talento ali fora José de Alencar – não é o fato extraordinário. O verdadeiro milagre é que Machado de Assis tenha se tornado um autor da primeira linha da literatura mundial, um mestre que pode ombrear, sem favor, com os expoentes do romance europeu, como o francês Flaubert ou o russo Tolstoi. E chegou lá depois do 40 anos, com a publicação, em 1881, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, ainda hoje o romance mais inovador (e engraçado) já escrito por um brasileiro. “É uma bobagem dizer que Machado de Assis foi um gênio. Ele se tornou genial à custa de muito trabalho”, observa o crítico João Cezar de Castro, da UERJ.

 

Como todo grande escritor, Machado de Assis é inesgotável: presta-se ás interpretações mais diversas, muitas delas conflitantes (para não falar no problema insolúvel mas irresistível que Dom Casmurro propõe ao leitor: Capitu, afinal traiu ou não Bentinho?). Uma mostra da vitalidade de sua obra está em seu potencial de inspirar batalhas entre os intérpretes.

 

O esforço de Machado para se afirmar como escritor passou pela poesia e pela crítica teatral, antes de descoberta da prosa de ficção como veículo ideal para seu talento. Engana-se quem imagina que Machado tenha sido um tipo grave e “filosófico”, imbuído das “rabugens de pessimismo” de que fala Brás Cubas. No tempo em que frequentava o teatro, na década de 1860, Machado era farrista.

 

O salto que a literatura de Machado dá por volta de 1880 é surpreendente. Alguns fatores pessoais costumam ser apontados como em alguma medida determinantes dessa espantosa evolução. Passada a juventude inconsequente, e a errância de um trabalho para outro, Machado enfim conhecia a estabilidade econômica e afetiva, casado desde 1869 com a portuguesa Carolina – mulher muito culta, que dominava o inglês – e empregado como funcionário público no Ministério da Agricultura. De um lado, entre 1878 e 1879, o escritor, sofreu graves problemas de saúde, com crises nervosas (era epilético), com problemas digestivos e uma infecção nos olhos. Passou uma temporada em Nova Friburgo – uma das poucas ocasiões em que saiu do Rio natal – para se tratar. O retiro no interior foi fundamental para que o autor reunisse forças para inaugurar a nova fase de sua obra. Todas as explicações, porém, são insuficientes diante das memórias que Brás Cubas – personagem meio canalha, mas muito charmoso – compõe no além-túmulo, em um exame ao mesmo tempo cáustico e complacente, melancólico e cômica de sua existência medíocre e ociosa. Depois de Brás Cubas viriam outros quatro grandes romances – Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires e dezenas de contos magníficos – A causa secreta, Capítulo dos Chapéus, Missa do Galo, Pai contra Mãe, para citar apenas alguns – que o escritor foi recolhendo em coletâneas com títulos quase sempre inexpressivos. Muitos acham que Machado se realiza melhor na narrativa curta do que no romance – o escritor Dalton Trevisan considera Esaú e Jacó, por exemplo, um romance tedioso e sem vida.

 

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